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por Lílian Buzzetto
Toda vez que acendo um cigarro eu sinto medo, pânico!
Não é medo de perder os dentes, a ereção, o bebê, o bom senso ou o próximo ônibus. Não temo o câncer de pulmão, de brônquios, traquéia, laringe, faringe, nariz e boca. Não tenho medo de espinguela caída ou de unha encravada.
Mas tremo só de pensar em ouvir a voz daquele ser humano que se materializa, pipoca, brota ao meu lado e pergunta: “Por que você não larga esse cigarro?” E tenho uma fobia quase patológica da frase que acompanha: “Isso vai te matar, menina!”
Quando escuto qualquer variação dessas sentenças minha alma fica negra e transforma toda a ansiedade e terror que eu sentia em uma metralhadora. Disparo contra o alvo (o autor da pergunta), toda a espécie de impropérios e ofensas. Estouro numa defesa fervorosa e apaixonada do meu vício e do meu direito de fazer o que eu bem entender com meu trato respiratório (e com todos os meus outros tratos).
Acho que não vou morrer por fumar. Vou morrer do coração ou de um ataque apoplético causado por esse estresse que, ultimamente, tem acompanhado o ato de acender um cigarro em público.
O que mais me choca é que não é necessário qualquer grau de intimidade. Quem me conhece não me questiona. São exatamente os desconhecidos e colegas distantes que se engajam na minha causa. Qualquer cidadão não ou ex-fumante se acha no direito de se meter, opinar, avisar, aconselhar e julgar o dono do cigarro. O ministério da saúde deveria advertir: “Fumar atrai intrometidos e inconvenientes” ou “O fumo tira seu direito de não falar com estranhos”.
Algumas pessoas condenam o fato de fumantes brigarem tanto para defender seu vício, porque todo vício é injustificável. Eu não quero justificar, explicar ou convencer as pessoas de que fumar é gostoso. Só quero ter dez minutos de paz com meu companheiro politicamente incorreto.
Mas as pessoas só estão preocupadas com meu bem estar e saúde, certo? Como sou ingrata! Peço sinceras desculpas por cada vez que não percebi o altruísmo alheio. Aliás, eu nem sabia que a sociedade tinha tantos membros bonzinhos e preocupados com o bem da humanidade.
Por favor, não desperdice seu desejo de ajudar o próximo comigo. Eu não quero ser salva, não estou pedindo e nem precisando de ajuda. Fiquem tranqüilos que eu me viro. E como sou contra o desperdício de sentimentos e atitudes tão nobres: estou oficialmente doando seus minutos de solidariedade cristã para os que de fato precisam.
Se preocupe com a saúde dos velhinhos que criam escaras pelo corpo por não ter quem os vire na cama, com as mães do Piauí que misturam terra na farinha pra render mais, com os cidadãos de São Paulo que comem sopa de papelão, com as crianças do nosso estado que morrem de piolho (sim, imagine a infestação pra matar). Ajude os pequenos que com feridas que vão até o osso de tanto coçar por falta de banho. Pare, olhe, escute! Preste atenção e verá a romaria de infelizes que espera e por sua vontade de ajudar. Em cada farol, em cada esquina.
O mundo tem muito espaço para o seu engajamento. Existe gente clamando por pessoas de bom coração, pelos seus conselhos, pela sua solidariedade. É claro que para ajudar quem realmente precisa é necessário sair do conforto do barzinho da Vila Madalena, das ruas da classe média, dos restaurantes e das baladas. Muitas vezes é preciso falar com pessoas mal-vestidas, mal-educadas e revoltadas (com razão). E o cheiro dos mendigos e doentes pode ser bem pior do que o da minha fumaça. Mas se você se preocupa com a saúde da população, esses obstáculos não vão impedir que você faça o bem maior.
Agora, se você não tem coragem ou vontade de lutar por quem implora pela sua bondade, não ouse abrir a boca para dizer que você só quer meu bem. Eu não sou seu caminho para o céu. Se você não está disposto a salvar que precisa de salvação, você é simplesmente um intrometido que quer encher os pacovas e não tem nada de bonzinho: não se iluda e não finja! E saiba que suposta preocupação com o bem da minha saúde não esconde seus defeitos mais graves, a começar pela inconveniência e a hipocrisia. É de você que eu tenho medo. E fique calmo, para seus defeitos não vai ter sermão: não tenho tempo pra ajudar você a melhorar. Existem pessoas e causas que precisam e merecem mais de mim.
PS: Eu não vou ficar explicando o que eu faço ou deixo de fazer pelo bem do mundo. E não precisa me explicar o que você faz. Se você não é hipócrita e quer ajudar de verdade, tenho profundo respeito por você.
Lílian Buzzetto, de São Paulo - SP, é dona do blog Cigarro Aceso. |