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por Jô Steigerwald
Eu fumo. Fumo mesmo, adoro um cigarro. Aliás, um só não, dois, três, vinte, quarenta, oitenta, todos os possíveis. As pessoas me associam a imagem do cigarro de forma ferrenha. Os conhecidos perguntam para mim que tipo de cigarro é o que, qual cigarro é mais parecido com qual, qual a diferença de um para outro... Já ensinei muita gente a fumar, e não me venha com aquele discurso politicamente correto, a pessoa já estava com um cigarro na boca, ensinei a usá-lo da maneira apropriada, a qual o lindo bastão nicotínico merecia: a tragar, os diferentes tipos de tragada, como segurar, como se portar com um cigarro na mão e assim por diante.
Não, esse não é mais um texto sobre o digníssimo governador de São Paulo com sua lei infame e anticonstitucional, caguei pra ele e pra proibição dele. É mais sobre o resto da população, que mais parece com um rebanho de cordeirinhos que falam "mas você não vai parar de fumar?", "isso vai te matar!" e outros jargões que cansam. Cada um tem seu vício, sua válvula de escape, o que seja... O meu é o cigarro, e não, não vou parar de fumar. Pelo menos não tão cedo. Não que eu jamais pense na possibilidade, nunca digo nunca, não sei o dia de amanhã. Mas, quando eu coloco na balança, ainda há mais aspectos positivos do que negativos.
Eu fumo porque eu gosto. Aí virão anti-tabagistas chatos falar "isso é papo de viciado". E eu mando enfiar um aceso bem no meio do rabo. Não é só por vício, eu consigo ficar um tempo absurdo sem fumar quando me convém, sem a menor vontade de fumar. O ônus da questão é que essas situações não se repetem com muita regularidade na minha vida. Apesar disso não excluo a possibilidade de vício nicotínico.
Eu fumo porque é meu tempo sozinha, sem ninguém pra me atazanar. É o meu prazer único e intransferível que eu posso fazer em público e que não preciso da ajuda de ninguém. Já tive epifanias tremendas nesse tempo, já achei soluções para problemas incríveis, já achei resoluções de vida e algumas coisas a mais. O cigarro é amigo. A fumaça é bonita, fumar é sexy (não em mim), é bonito. E nem se pode dizer que fui vítima da inquisição da moral e bons costumes: quando eu era criança a ponto de entender as propagandas, elas foram abolidas da TV. E, devo dizer, nunca vi muito senso no cowboy do Marlboro, nem nas ondas do Hollywood e nem lembro da propaganda do Free. Acho bonito porque acho, do mesmo jeito que acho bonito uma mulher com camisetão desbotado, cabelo desgrenhado e descalça.
Falando em propaganda, tempos atrás fui a uma exibição (que tentava ser anti-tabagista) sobre propaganda de cigarros nos primórdios da publicidade. As propagandas ostentavam jargões engraçadíssimos como "em vez de pegar um doce, pegue um Luckie", "Camel, o cigarro que os médicos preferem", "Luckies não irritam sua garganta. É tostado!" e uma peça hilária de Marlboro com fotos de bebês. Nunca entendi publicitários (meus amigos publicitários que me perdoem, mas para mim essa é uma ciência que só vocês entendem). Hoje, a propaganda está reversa. Usam opiniões de médicos conceituados na mídia para embasar teorias não comprovadas cientificamente, adestrar a maior parte da população mundial criando medo inexistente. Ninguém divulga que não é comprovado que o cigarro cause câncer, que a fumaça que sai do cigarro é prejudicial (segundo pesquisa da OMS) e mais um monte de balbúrdias que eu tenho muita preguiça de elencar agora.
O mérito desse último parágrafo é observar o contraste de publicidade sobre meus grandes amigos. De mocinho a vilão em cerca de cinquenta anos. Li em algum lugar tempos atrás que essa perseguição ao cigarro, tornando os fumantes praticamente criminosos, é um tipo de novo método de manipulação de massas, praticamente ditatorial. Oras, você se pergunta, como é ditatorial se eles não me forçam a nada? Muito bem perguntado, meu caro leitor, vamos lembrar da sua infância, sim? Melhor, vamos tomar um cachorro sendo educado como exemplo: quando o cachorro faz algo errado, ele é punido. Quando ele faz algo certo (lembre-se: certo é o que você quer que ele faça) ele é congratulado e ganha um prêmio. Os governos mundiais estão fazendo exatamente a mesma coisa com as pessoas, incluindo, provavelmente, você. Resolveram que fumar era algo do mal, que só pessoas más o faziam. Começaram a plantar essa idéia aos poucos na cabecinha de cada uma das pessoas. Cachorros são maus quando fazem xixi dentro de casa. Pessoas são más quando fumam. Mas você não quer ser mau, você quer ser bonzinho. Quem quer ser mal? O mal sempre perde no fim! Você passa a olhar para os cigarros com outros olhos. Você quer ser bom, mas para ser bom, você precisa detestar, odiar, desrespeitar tudo o que dizem que é mau. O cigarro é mau, você deve repudiá-lo com todas as suas forças. Fazendo isso, acatando a visão que querem que você acate, você vira uma boa pessoa. O bom cidadão. E eu digo: você é um cordeirinho sendo levado para onde querem levá-lo. O cachorro também começa, cedo ou tarde, a achar que fazer xixi dentro de casa é coisa de cachorros maus.
Cigarro causa câncer. Viver causa câncer. Cigarro mata. Todos os não fumantes também vão morrer. Se você fumar você vai virar um bebê de compota. Se você fumar você vai acabar com toda sua família, todos irão sofrer por causa do cigarro. Se você fumar você vai broxar. Se você fumar... tudo balela. É só pesquisar um pouco que você descobre tudinho sobre essas coisas.
Eu fumo, fumo mesmo, e gosto, gosto pra caramba. Continuo nadando contra a maré, continuo não abdicando de fazer o que eu quiser com a minha vida, continuo fazendo dela o que eu quero fazer. Enquanto for uma droga legalizada fumarei. Quando não for mais, me mudarei para algum lugar em que ainda seja, e assim até o fim dos meus dias, ou até o balanço do ruim superar o bom. Que fique claro: o meu balanço do bom e do ruim, não o do governo, não o seu, não o da minha família e assim por diante. Não aceito pitacos dos outros sobre como eu devo viver minha vida. |