Contra o preconceito e o desrespeito

Contra o preconceito e o desrespeito

Pais X Cigarros: como lidar com a verdade
A Arte de Fumar - Arte e técnica

Uma das cenas mais clássicas de conflitos entre pais e filhos adolescentes é a descoberta de que há um novo fumante na família. As entidades que buscam reprimir os fumantes, como se poderia esperar, pregam a intolerância total por parte dos pais. Os filhos ficam na dúvida entre assumir de vez o hábito ou simplesmente continuar fumando escondidos. E os pais vivem o dilema entre proteger a saúde ou demonstrar liberdade aos jovens, e se perguntam onde que erraram -- muitas vezes sem motivo algum para isso. Em uma coleção de depoimentos da vida real, podemos ver como que pais e filhos lidam com a questão, e muitas vezes até se tornam mais próximos.

O lado dos pais

Com raríssimas exceções, fumar sempre foi mostrado a jovens e adolescentes como um hábito exclusivamente adulto. Naturalmente, para alguns desses jovens isso torna o fumo objeto de curiosidade, auto-afirmação, e em alguns casos rebeldia e enfrentamento. Muitos vêem como bonito e elegante o ato de fumar e são atraídos por isso, e alguns outros -- menos do que se pode imaginar -- são influenciados por amigos e colegas fumantes. Tornou-se comum a idéia de que a presença de fumantes na família -- os próprios pais, ou mais ainda irmãos e primos em idade semelhante -- aumenta a atração do jovem pelo cigarro e cria algumas facilidades, como o cigarro mais disponível e a menor possibilidade de que um banheiro ou quarto com cheiro de cigarro seja percebido. No entanto, atribuir aos pais fumantes a "culpa" pela adoção do hábito pelos filhos é uma falácia: se assim fosse, todos os filhos de fumantes também seriam fumantes, e não haveria filhos fumantes de pais não fumantes.

Com honestidade e imparcialidade fora do comum, a edição 556 da revista Ana Maria, da Editora Abril, publicou uma breve reportagem sobre o assunto, com a participação do pneumologista Sérgio Santos e da psicóloga Eroy Aparecida da Silva. Ambos apontaram que a repressão severa é o pior caminho e apenas aumenta a curiosidade do jovem pelo fumo, e que a melhor atitude a tomar é conversar com o jovem sem preconceitos, terrorismo e agressividade. Além das questões já apresentadas na reportagem, também é válido acrescentar alguns outros:

- Fumar não quer dizer que o jovem esteja envolvido com drogas. Muitos pais fazem essa associação e existem, de fato, casos em que adolescentes aprendem a fumar com cigarros para poder fumar maconha. Mas são vários os possíveis indícios que os pais podem buscar para avaliar se os filhos estão envolvidos com drogas, e fumar não está entre os principais deles -- como o isolamento, sonolência ou agitação excessiva, a venda injustificada de objetos pessoais, entre outros.

- Existem problemas muito mais sérios.
A campanha anti-tabagista apregoa o fumo como o maior monstro de todos os tempos, mas racionalmente se vê que não é bem assim. O fumo não traz efeitos graves em curto prazo e não afeta a capacidade social e intelectual do indivíduo, e assim pouco afeta o cotidiano do jovem. Seria muito mais chocante e com mais conseqüências se sua filha dissesse estar grávida, ou que o seu filho estivesse se tornando alcoólatra ou se envolvendo em brigas de rua e pequenos delitos.

- Jovens são curiosos. A tendência de experimentar coisas novas é natural na formação de um novo adulto -- basta os pais lembrarem como agiam quando tinham a mesma idade. Mudanças de opiniões também fazem parte do crescimento e é possível que em muito pouco tempo fumar não seja mais interessante para o adolescente. E, como tudo que é proibido é mais gostoso, a liberdade dada pelos pais pode acabar contribuindo para esse desinteresse.

- Não se fuma por ignorância. Já são fartas e persistentes as informações sobre os males do fumo e a campanha de execração aos fumantes. Não é a falta de informação que leva os jovens a fumar, e sim uma série de outros motivos que devem ser analisados e compreendidos pelos pais. Os pais devem lembrar aos filhos os riscos à saúde e ao bem estar, mas também devem levar em consideração que algumas dessas informações estão nos próprios maços de cigarros e já são até ensinadas na escola desde a mais tenra infância. A última coisa que o adolescente quer é ser tratado como idiota, e a maior característica da idade é exatamente o desejo de ter suas decisões respeitadas e tirar as próprias conclusões sobre tudo. O máximo que os pais podem fazer se não querem que os filhos fumem é obrigar o adolescente a sustentar o próprio hábito, o que também é uma responsabilidade adulta e poderá fazê-lo desistir da idéia.

- Há algum benefício para o jovem em fumar. Se não houvesse, ele certamente nem teria se interessado. Pais fumantes podem compreender melhor que fumar pode ser relaxante, pode aliviar a tensão, pode aumentar momentaneamente a capacidade de concentração e raciocínio, pode ser simplesmente uma forma de auto-afirmação e aumentar a sensação de auto-confiança, e até mesmo pode ser uma forma de enganar a fome para evitar aumento de peso -- uma preocupação bastante comum em garotas adolescentes. Para o jovem, pelo menos nesse momento, algum desses benefícios supera os riscos trazidos pelo hábito, e isso deve ser compreendido pelos pais -- que, de toda forma, podem sugerir outras coisas que fornecessem os mesmos benefícios, e assim talvez tornassem o fumo menos interessante para o adolescente.

O lado dos filhos

Pode até parecer contraditório com a atitude de demonstrar independência e afirmação, mas a imensa maioria dos adolescentes que começam a fumar tem como maior preocupação exatamente a reação dos pais. Entre os amigos, e mais recentemente em discussões via Internet, muitos dos fumantes iniciantes revelam ter desejo de se abrir com os pais, mas não imaginam como fazer isso e nem o impacto que a notícia teria -- o que, pensando bem, não deixa de ser um sinal de respeito e de desejo de manter a sinceridade na relação familiar. Da maior parte das histórias, é possível apurar alguns conselhos:

- Pais e mães não são todos iguais. É por isso que não dá para responder com precisão e certeza uma pergunta do tipo "como é que eu digo pra minha mãe que eu tô fumando?". Só o jovem conhece os pais que tem, e antes de abrir o jogo é preciso analisar a personalidade deles e o relacionamento que se tem com eles. É possível prever que pai ou mãe que seja fumante vai acabar aceitando a notícia mais facilmente, ao mesmo tempo em que a reação será mais complicada em uma família de evangélicos, por exemplo, ou que tenha perdido um parente próximo por alguma doença como câncer. Para alguns pais pode ser mais eficiente e seguro pedir uma conversa franca e contar logo de uma vez. Para outros, talvez seja melhor testar a possível reação à notícia deixando alguns sinais de que se está fumando -- um isqueiro ou um maço "esquecido" na escrivaninha, por exemplo. De toda forma, é sempre mais recomendável se antecipar e contar a verdade do que deixar que eles descubram por conta própria.

- Não espere que isso seja aceito facilmente. Mesmo que os pais sejam fumantes, vai pesar acima de tudo e em primeiro lugar a preocupação com a saúde do(a) filho(a) e a possibilidade de que a mesma curiosidade que o(a) tenha levado a fumar possa também ter levado a outras coisas mais graves, como drogas. O adolescente precisa entender essa preocupação por parte dos pais e não tornar a reação inicial um motivo para uma briga ou uma crise familiar. Se você realmente quer ser fumante, não prometa que vai parar de fumar; mas aceite que seus pais poderão não querer que você fume em qualquer lugar da casa ou na frente deles.

- Mostre que merece a liberdade. Qualquer desejo -- de ir para festas, de viajar, ou de ser fumante, por exemplo -- será muito mais compreendido pelos pais se o filho demonstra bom comportamento, não se envolve com drogas ou violência, vai bem na escola, mostra que consegue se virar sozinho e cumprir responsabilidades. Isso não quer dizer que é preciso ser um nerd, mas os pais são muito mais tolerantes quando vêem que os filhos têm maturidade suficiente para tomar as próprias decisões e arcar com as conseqüências delas.

Como outras pessoas fizeram

"Nada convence mais do que a verdade"

Com 13 anos Lucas Infante roubou um Marlboro do pai, mas não tragou. Aos 15 começou a fumar escondido algo entre dois e três cigarros por dia, quase sempre na escola. Aos 16 anos, já trabalhando, resolveu assumir o hábito para o pai e a mãe, ele fumante e ela ex-fumante. "Ele me disse 'você sabe o mal que faz, sabe que mata muita gente por ano. É uma decisão sua, mas eu não vou sustentar vício seu'. Foi uma aceitação boa, pensei que ele iria falar mais", lembra. Já com a mãe, Lucas preferiu ser descoberto. "Deixei meu maço perto da mesa do computador. Ela viu, perguntou se era meu, eu disse que sim, e ela falou 'ok, você sabe o que está fazendo. Só não fume no quarto, você sabe que isso deixa cheiro'. A aceitação deles foi boa, mas tenho amigos que até hoje escondem dos pais por medo de uma reação mais forte. Eu acho que nada convence mais do que a verdade".

"A galera pensava que eu e minha mãe éramos amigas"

A paulistana Yara Arruda, de 16 anos, começou a fumar aos 12. "Filha de pais fumantes, odiava cigarro, não suportava, até que resolvi experimentar. Confesso que achava bonito, só não suportava o cheiro", diz, lembrando que foi a primeira do grupo de amigos a fumar. No início, só fumava fora ou em casa quando a mãe não estava. Mas logo resolveu fumar no quarto e foi flagrada pela mãe com um cigarro na mão. "Ela me olhou nos olhos e disse 'você sabe que isso vai prejudicar sua saúde, você não é nada burra'. Fiquei pensando naquilo".

Yara começou então a fumar regularmente com a mãe e admite que isso a fez exagerar: aos 14 anos, numa fase de depressão causada por problemas familiares, não queria sair de casa e chegava a fumar três maços por dia. "Eu jogava handball no colégio, era do tipo esportista, era armadora e capitã. Quando comecei a fumar bastante, não conseguia mais correr como antes, era algo humanamente impossível. Aí parei de jogar, minha treinadora quis me esganar... e, bem no fundo, eu queria continuar jogando, mas não tinha como". Depois da depressão, diminuiu e atualmente fuma um maço e meio por dia, mas ainda acha muito: "Não acho isso legal, não aconselho para ninguém".

O pai resistiu quando descobriu do hábito da filha: "ele disse que se me visse fumando novamente me faria engolir o cigarro. Não fumava na frente dele de jeito nenhum". Mas em 2007 ele faleceu e o restante da família também ficou sabendo e aceitou o hábito de Yara. assim como os amigos. "Às vezes o pessoal chegava aqui em casa e eu tava tomando cerveja e fumando com a minha mãe. Sempre surgiam comentários do tipo 'nossa, se minha mãe fosse assim, eu seria bem mais feliz'. A galera pensava que eu e minha mãe éramos amigas".

Suspeitas de drogas

Com 18 anos, Fernando Rasera começou a fumar escondido em casa, o que era facilitado pelo fato de a mãe também ser fumante e isso disfarçar o cheiro. Mas três meses depois alguém ligou para a mãe e contou. "Minha mãe veio até mim e perguntou se era verdade. Aí, sem rodeios, eu disse que era verdade sim. Ela ficou triste, porém não ficou brava, e me aconselhou a parar enquanto não estava viciado". Fernando não quis parar e hoje, aos 21, continua fumando com a mãe. Já o pai, falecido no ano passado, não aceitou em momento algum. "Ele não sabia que eu continuava fumando. Ou fingia, o que é mais provável", lembra.

O problema maior de Fernando, porém, não foi dentro de casa. "Vieram os boatos e suspeitas de que eu estava usando drogas. Toda minha família, exceto minha mãe e minha irmã, achavam que eu fumava maconha. Sofri muito com isso". Para ele, abrir o jogo com os pais é o melhor caminho. "Mais dia ou menos dia eles descobrem".

Discurso com cigarro na mão

"Cresci num ambiente cheio de fumaça, cinzeiros, isqueiros e coisas do tipo. Como toda criança chata, ficava enchendo o saco dos meus pais para pararem de fumar. Minha mãe falava toda vez para mim e para meus irmãos que ela nos faria comer o cigarro se nos visse fumando", lembra Joana Steigerwald, de 21 anos. Aos 16 anos experimentou numa festa cigarros de cravo e gostou do sabor que fica nos lábios. Algum tempo depois passou para os cigarros comuns e se cansou de esconder que fumava. "Comecei a deixar dicas que eu fumava pela casa e tal. Um dia minha mãe pegou um maço de cigarro meu, me chamou, segurou o maço e perguntou: 'o que é isso?'. Eu prontamente respondi: 'cigarro, ué'. Ela começou a fazer um discurso sobre o quanto o cigarro faz mal e tals. Mas fez esse discurso com um cigarro aceso na mão e eu comecei a rir muito", lembra.

Joana nunca fumou realmente na frente da mãe, embora não tenha problemas em aparecer segurando o cigarro de vez em quando. "Minha mãe é louca o suficiente pra fazer o que prometeu. Mas eu compro cigarros pra ela, isqueiro, e tudo mais que pais e filhos fumantes fazem".

"Vamos longe na prosa"

Lucas Pereira, de 20 anos, começou a fumar aos 17 anos em uma viagem -- "para fazer graça", como ele mesmo diz. Ficou dois meses fumando escondido até abrir o jogo para os pais. "Eles só perguntaram se era realmente isso que eu queria, e só. Nunca me encheram o saco ou me repreenderam por causa do cigarro".

A compreensão acabou estreitando os laços com os pais: "Hoje em dia fumo junto com meu pai e acho que é uma das coisas legais no nosso relacionamento, pois quando saímos de casa pra fumar,começamos a conversar e vamos longe na prosa".

Repassando a liberdade

O curitibano Décio Bozza começou a fumar com 11 anos influenciado pelos irmãos, que são pelo menos dez anos mais velhos e fumavam abertamente em casa. "Lembro que comecei fumando as bitucas que minha irmã mais velha costumava arremessar acesas no quintal pela janela da cozinha". Mesmo nesse ambiente, Décio nunca se sentiu à vontade para fumar abertamente em casa até os 23 anos. "Só depois fiquei sabendo que todos sabiam que eu fumava, mas não diziam nada e fingiam que não sabiam", lembra. Hoje aos 43, Décio diz que fez de tudo para evitar que a filha, também fumante, não tivesse o mesmo bloqueio. "Eu pedia para ela acender meus cigarros desde pequena, deixava carteiras em sua mochila, e ela fuma abertamente na minha frente desde os 15 anos", diz.

Relação de amizade

Cássio Sales enfrentou uma reação forte quando os pais descobriram que ele fumava escondido aos 15 anos. "Meu pai me recriminou, quase me bateu e minha mãe, fumante, ficou muito triste e falou pra eu parar enquanto não era viciado, porque ela tentava largar o cigarro e não conseguia". Porém, os pais se divorciaram algum tempo depois, e Cássio passou a viver só com a mãe. "Quando fiquei maior de idade, minha mãe disse que eu já era responsável por mim e podia fumar e beber. Hoje ela compra cigarro pra mim, fumamos juntos, bebemos juntos, é super tranquilo e desde então nosso relacionamento só foi ficando melhor. Eu nunca gostei de fazer nada escondido, e fumar junto com a minha mãe, beber junto com ela e dividir segredos com ela, fez com que nós passássemos da relação mãe-filho para uma relação de amizade".
 
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